“Gil – Andar com Fé” leva aos palcos a vida, a música e a história de Gilberto Gil
Primeira biografia musical dedicada ao artista revisita a infância na Bahia, a Tropicália, a ditadura, o exílio em Londres, a família e a espiritualidade em uma superprodução dirigida por Miguel Falabella
Por Brunno Lemos | Rádio Domm
A trajetória de um dos maiores nomes da cultura brasileira ganhou os palcos. “Gil – Andar com Fé”, primeira biografia musical dedicada integralmente à vida e à obra de Gilberto Gil, está em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo, reunindo música, memória, história, política e identidade brasileira.
Com direção de Miguel Falabella e dramaturgia de Newton Moreno, a produção foge do formato tradicional das biografias musicais. Em vez de simplesmente apresentar os acontecimentos da vida do cantor em ordem cronológica, o espetáculo promove encontros entre passado, presente e futuro, transformando o próprio tempo em elemento da narrativa.
A história começa em Londres
Um dos aspectos mais simbólicos da montagem é justamente o ponto escolhido para iniciar essa viagem: o exílio de Gilberto Gil em Londres.
Depois de ser preso durante a ditadura militar brasileira, Gil deixou o Brasil ao lado de Caetano Veloso e viveu na capital britânica no início dos anos 1970.
Foi um período difícil, marcado pelo afastamento forçado de seu país, mas também profundamente transformador do ponto de vista artístico. Em Londres, Gil entrou em contato ainda mais intenso com o rock britânico e com uma cena cultural que ampliaria suas referências musicais.
É a partir desse momento que “Gil – Andar com Fé” começa a viajar pelas memórias do artista.
A narrativa retorna à infância na Bahia e passa por Salvador, pela amizade com Caetano Veloso, pela Tropicália, pela repressão política, pelo exílio, pelos relacionamentos, pela família, pela espiritualidade e pelos encontros que ajudaram a construir uma das carreiras mais importantes da música brasileira.
Para os brasileiros que vivem no Reino Unido, essa passagem ganha significado especial: Londres, que recebeu Gil como exilado político, tornou-se também parte fundamental da formação artística do músico que posteriormente levaria a cultura brasileira para o mundo.
Tempo-Rei também vira personagem
Uma das escolhas mais interessantes da dramaturgia foi transformar Tempo-Rei em personagem.
Interpretado por Guga Barbosa, ele funciona como uma espécie de guia que conduz Gil e o público pelas diferentes fases da história.
Inspirada também em uma concepção iorubá do tempo, a estrutura permite que diferentes momentos da vida do cantor coexistam no palco.
Memórias, personagens e canções surgem sem a necessidade de obedecer rigidamente a uma linha cronológica.
Gui Ventura assume o desafio de interpretar Gil
A responsabilidade de interpretar Gilberto Gil ficou com o ator, cantor, músico e compositor mineiro Gui Ventura.
O artista foi escolhido depois de um processo de audições que mobilizou mais de 800 candidatos.
Natural de Minas Gerais e com uma trajetória construída entre música e teatro, Ventura mergulhou na história, nos gestos e na musicalidade de Gil para assumir o protagonista.
O primeiro encontro entre os dois também produziu uma história especial.
Emocionado diante do artista que interpretaria no palco, Gui teria dito a Gil que faria o melhor que pudesse.
A resposta foi quase uma lição:
“Faça apenas o que puder, não precisa do melhor.”
Depois, os dois cantaram juntos “A Paz”.
34 artistas contam essa história
A produção reúne 34 artistas no palco.
Além de Gui Ventura como Gilberto Gil, o núcleo principal conta com Guga Barbosa, como Tempo-Rei; Henrique Zamith, interpretando Caetano Veloso; e Bel Lima, como Flora Gil.
Contar a história de Gil significa inevitavelmente revisitar também personagens fundamentais da música e da cultura brasileira.
Por isso, nomes como Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Luiz Gonzaga, Jorge Mautner, Jards Macalé, Roberto Carlos e Nana Caymmi aparecem representados ao longo da narrativa.
A família ocupa igualmente um lugar importante, com referências aos filhos, netos, à bisneta Flor, a Flora Gil e a momentos relacionados a Preta Gil.
Uma vida contada através das canções
Naturalmente, a música ocupa o centro do espetáculo.
Mas as canções não aparecem apenas como uma sucessão de grandes sucessos. Elas são utilizadas como ferramentas para contar a própria história.
O repertório passa por diferentes momentos da carreira e inclui músicas como “Eu Vim da Bahia”, “Andar com Fé”, “Aquele Abraço”, “Domingo no Parque”, “London, London”, “Tempo-Rei”, “Se Eu Quiser Falar com Deus”, “Drão”, “Vamos Fugir”, “Back in Bahia”, “Palco”, “Realce” e “Toda Menina Baiana”.
Nesse contexto, músicas conhecidas por gerações de brasileiros ganham novos significados.
“London, London” e “Back in Bahia”, por exemplo, dialogam diretamente com a experiência do exílio e com a relação entre distância, saudade e pertencimento.
“Tempo-Rei” extrapola a música e inspira a própria construção dramatúrgica.
E “Andar com Fé” acaba sintetizando uma característica presente em diferentes momentos da trajetória de Gil: a capacidade de continuar, transformar-se e seguir criando.
Gil assiste à própria história no palco
Um dos momentos mais emocionantes desde a estreia aconteceu quando o próprio Gilberto Gil, aos 84 anos, foi ao Teatro Santander acompanhado de Flora Gil para assistir ao espetáculo.
Depois de ver sua vida, suas músicas, seus encontros e diferentes momentos de sua trajetória representados diante dele, Gil foi convidado a subir ao palco.
O artista dançou com o elenco e manifestou sua aprovação à montagem.
Ao comentar o que havia acabado de assistir, resumiu sua impressão dizendo que o espetáculo:
“só dizia verdades”.
Uma frase curta, mas especialmente significativa quando parte justamente do homem cuja história está sendo representada.
Arte, política e liberdade
“Gil – Andar com Fé” não poderia contar essa trajetória sem abordar também a história política brasileira.
A ditadura militar, a prisão e o exílio fazem parte da narrativa.
Mas a produção coloca ao lado da repressão a capacidade que Gil teve de transformar experiências dolorosas em criação.
O artista que foi obrigado a deixar seu país retornou trazendo novas referências musicais e uma visão ainda mais ampla sobre cultura e mundo.
Sua trajetória acaba demonstrando como a arte pode sobreviver à repressão e transformar dor, deslocamento e resistência em criação e liberdade.
Muito além de uma biografia musical
A cenografia também procura escapar do realismo convencional.
A produção dialoga com referências das artes plásticas brasileiras e com nomes como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Alfredo Volpi, enquanto música, iluminação, movimento e elementos visuais ajudam a conduzir as diferentes memórias.
O objetivo não é simplesmente assistir à história de Gilberto Gil.
É atravessá-la.
Cantar, lembrar, compreender e, em determinados momentos, celebrar junto com o elenco.
SERVIÇO
Espetáculo: Gil – Andar com Fé
Local: Teatro Santander – Complexo JK Iguatemi
Cidade: São Paulo – SP
Endereço: Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041
Sessões: quintas e sextas, às 20h; sábados, às 16h e 20h; domingos, às 15h e 19h
Duração: aproximadamente 2h20, além de intervalo
Classificação: 12 anos
Acessibilidade: sessões com audiodescrição e Libras
Temporada: programação divulgada até 29 de novembro de 2026; recomenda-se consultar a bilheteria para disponibilidade e eventuais alterações.
Gil continua andando com fé
Talvez esteja justamente aí a força de transformar a vida de Gilberto Gil em teatro.
Sua trajetória atravessa Bahia e Londres, tradição e experimentação, repressão e liberdade, guitarra e violão, espiritualidade, família e palco.
É a história de um artista que nunca precisou escolher entre ser profundamente brasileiro e conversar com o mundo.
E existe uma imagem especialmente poderosa nisso tudo.
Aos 84 anos, Gil pode sentar-se na plateia de um teatro e assistir a outro artista representar sua juventude, suas dores, seus amores, suas escolhas e suas canções.
Depois, levantar-se, subir ao palco e dançar ao lado daquele elenco.
Passado e presente se encontram.
Exatamente como propõe o espetáculo.
Porque, depois de tantas décadas, tantas transformações e tantas canções, Gilberto Gil continua andando com fé.
Por Brunno Lemos
Rádio Domm — A rádio brasileira na Inglaterra



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