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Lucas Freitas: do Rio à Europa, a persistência de quem escolheu viver da arte

Entre o teatro, a televisão e a moda, o ator e modelo carioca conta como enfrentou a instabilidade da profissão e construiu novos caminhos em Lisboa e Londres.

Lucas Freitas: do Rio à Europa, a persistência de quem escolheu viver da arte
Lucas Freitas, ator e modelo carioca, em retrato realizado em Portugal. Foto: David Velez / acervo do entrevistado.
Brasileiros que Inspiram

Histórias que atravessam fronteiras

Por Brunno Lemos · Entrevista à Rádio Domm

Lucas Freitas já tentou trocar os palcos por uma loja de shopping. Recém-formado em teatro e à espera de oportunidades, precisava trabalhar. A experiência durou dois meses. Hoje, ele conta o episódio com humor, mas lembra que chorava pensando na vontade de atuar. Não era apenas a dificuldade de dobrar uma blusa: era a sensação de estar longe da profissão que desejava.

Esse intervalo ajuda a compreender a trajetória do ator e modelo nascido no Rio de Janeiro. Antes das campanhas, das gravações e das experiências na Europa, houve peças sem remuneração, testes sem resposta e a necessidade de aprender, na prática, quanto valia seu trabalho.

Em entrevista à Rádio Domm, Lucas Andrade de Freitas, que assina profissionalmente Lucas Freitas, conta que hoje divide a vida entre Lisboa, Londres e temporadas no Rio. Ao falar de suas conquistas, volta também às dúvidas e aos períodos de espera que acompanharam essa construção.

O menino que queria os papéis principais

A vontade de atuar começou na escola. Lucas disputava os papéis principais nas apresentações e acompanhava novelas com entusiasmo. Uma leitura de uma versão reduzida de Hamlet abriu outra porta: o universo de Shakespeare. Depois, passou a interpretar sozinho e a aprender edição de vídeo. As aulas no Tablado vieram como uma atividade de lazer, ainda sem a certeza de que aquilo se tornaria profissão.

Ao buscar uma formação, escolheu primeiro Rádio e TV. O desejo de fazer teatro já existia, mas o mercado artístico lhe parecia difícil de acessar. Durante os estudos, surgiram trabalhos como modelo. A entrada na agência 40 Graus Models ampliou as oportunidades, enquanto as peças infantis lhe davam experiência de palco.

“Perdi a conta de quantos príncipes fiz”, lembra. Nem todos esses trabalhos, porém, eram pagos, e as condições nem sempre eram boas. Publicidades e uma participação como anjo em uma novela da Record ajudaram a abrir novos caminhos.

Lucas Freitas em cena no espetáculo Tarzan.
Lucas em uma montagem de Tarzan: as peças infantis fizeram parte de seus primeiros trabalhos.Acervo pessoal de Lucas Freitas.

A formação que mudou sua maneira de atuar

Lucas descreve a formação na Casa de Artes de Laranjeiras, a CAL, como uma mudança que ultrapassou o aprendizado técnico. Foi ali que encontrou pessoas com objetivos semelhantes e começou a descobrir os métodos e as escolhas que orientariam seu trabalho.

Na lembrança dele, o curso representou uma passagem da preocupação com a própria imagem para a entrega ao personagem. Um exercício de autoconhecimento que exigia deixar a vaidade de lado.

“Sai muito do superficial do querer ver você na arte, mas sim de ver a arte em você.”

Lucas Freitas, sobre a formação na CAL

Essa descoberta ganhou força em um espetáculo apresentado no Planetário da Gávea, sob direção de Ticiana Studart, com texto do dramaturgo catalão Sergi Belbel. Lucas interpretava um personagem marcado pela dependência de drogas, pelo abandono e pela violência.

A preparação incluía observar movimentos corporais e buscar um modo de falar que fizesse sentido para aquela história. A intensidade da experiência chegou a atravessar a rotina fora do palco: sua mãe percebia que ele voltava para casa ainda com o tom de voz do personagem.

Ao recordar o trabalho, Lucas reconhece que essa aproximação nem sempre era fácil, mas diz que ela confirmou a profissão que queria seguir. Também destaca Ticiana como alguém que percebeu possibilidades em sua atuação antes que ele próprio as enxergasse.

Lucas Freitas e uma colega em registro de trabalho teatral.
O teatro foi um espaço de entrega ao personagem e descoberta de novas possibilidades de atuação.Studio Art / acervo de Lucas Freitas, conforme crédito enviado.

Aprender a esperar — e a valorizar o próprio trabalho

A formação não eliminou as dificuldades. Para Lucas, uma das partes mais duras da carreira é alternar meses de trabalho e renda com períodos sem contratação. Uma publicidade importante ou uma temporada de novela pode ser seguida por uma longa espera.

Foi em um desses momentos, logo após a CAL, que tentou trabalhar no shopping. A necessidade financeira se somava ao receio de perder a confiança por ficar longe da atuação. Hoje, ele trata aquela tentativa como parte de um caminho que não veio acompanhado de um roteiro pronto.

Com o tempo, aprendeu também a lidar com os testes. Ainda há frustração quando uma oportunidade muito desejada não se concretiza, mas passou a entender que a seleção depende do perfil procurado para cada projeto, além da qualidade do trabalho apresentado.

Outra aprendizagem foi estabelecer limites. Lucas relata ter enfrentado situações de assédio e abuso em relações profissionais com pessoas em posições de poder. Ao falar do assunto, ressalta a importância de reconhecer o próprio valor e de deixar claro o que aceita. Seu interesse por personagens e propostas artísticas diferentes convive, hoje, com a exigência de remuneração e respeito.

Uma campanha que abriu a porta para Lisboa

Entre os trabalhos que considera decisivos está uma publicidade da TIM ligada ao Rock in Rio, em 2022, na qual interpretou David Bowie. Segundo Lucas, a campanha lhe deu visibilidade e a oportunidade de conhecer a edição do festival em Lisboa. A experiência contribuiu para sua decisão de morar na cidade.

Na televisão, ele guarda carinho pela participação em Reis, da Record. Conta que raspou a cabeça para o personagem e acompanhou o processo de duas temporadas. A permanência na produção permitiu observar mudanças no elenco e conhecer mais de perto a rotina de um trabalho prolongado.

Lucas Freitas com figurino branco e acessórios dourados em produção da Record.
Caracterizado para um trabalho na Record, Lucas recorda a experiência de atuar em produções da emissora.João Paulo Freitas / TV Record, conforme crédito enviado.

Ao mencionar quem contribuiu para sua trajetória, cita também a autora Alessandra Poggi. Lucas conta que apresentou seu trabalho a ela pelas redes sociais e recebeu uma oportunidade de participação na televisão — uma iniciativa que guarda como exemplo da importância de buscar contatos e mostrar o que faz.

Entre cidades, câmeras e novas experiências

Lisboa, Londres e Rio de Janeiro passaram a compor sua rotina. As temporadas entre Brasil e Europa aproximam Lucas de diferentes oportunidades e também alimentam o conteúdo que produz nas redes sociais.

Londres ocupa um lugar especial nesse percurso. Ele destaca a organização de um desfile de que participou e o respeito que encontra em parcerias com o setor de gastronomia. Ao comparar suas experiências no audiovisual, prefere observar as particularidades de cada equipe: para ele, os profissionais envolvidos têm um peso maior do que as diferenças entre países.

Lucas Freitas diante do Arco da Rua Augusta, em Lisboa.
Lisboa passou a fazer parte da vida do ator e modelo, que também mantém temporadas em Londres e no Rio.Acervo pessoal de Lucas Freitas.

O trabalho como modelo trouxe outras formas de expressão. Para a edição 11 da Yummyzine, Lucas foi fotografado por Sasha Olsen, que o convidou pelas redes sociais. Ele relaciona sua naturalidade diante da câmera à formação teatral e à experiência com a nudez em cena, e fala do interesse por uma fotografia que trate o corpo como linguagem artística.

Retrato de Lucas Freitas para a revista Yummyzine.
Lucas participou da edição 11 da Yummyzine, após convite do fotógrafo pelas redes sociais.Sasha Olsen / Yummyzine.

A presença como influenciador também cresceu após a campanha de 2022. Eventos, viagens e experiências gastronômicas passaram a integrar seu trabalho. Embora não fosse seu plano inicial, diz que encontrou prazer nessa atividade e liberdade para mostrar a própria rotina.

“Não consigo ser low profile, minha vida é boa demais pra passar escondida.”

Lucas Freitas, sobre compartilhar suas experiências nas redes

Os próximos personagens e um filme próprio

Na entrevista, concedida em outubro de 2026, Lucas conta que terminou recentemente as gravações de A Teoria do Ódio, do realizador Vicente Alves do Ó, em Portugal. Interpreta Bolinha, um jovem envolvido no tráfico de drogas, em seu primeiro longa-metragem numa produção portuguesa. O trabalho também lhe proporcionou contracenar com Roberta Rodrigues, atriz que já admirava.

Segundo ele, a estreia está prevista para 2027. Lucas relata ainda uma participação em uma produção no formato de novela vertical, gravada em Portugal para uma plataforma americana, e a preparação para um desfile em Lisboa.

Para o futuro, quer realizar um filme próprio. Escreve desde criança e deseja reunir uma equipe para produzir uma de suas histórias. Como ator, procura personagens distantes de sua personalidade, capazes de exigir novas formas de pensar, falar e se movimentar.

Sucesso também é poder pagar as contas

Quando a conversa chega ao significado de sucesso, Lucas dá uma resposta que reúne bem-estar, autonomia financeira e a possibilidade de ajudar outras pessoas.

“Sucesso é você estar bem consigo mesmo, pagar suas contas, ter uma vida feliz, e se possível ajudar o próximo.”

Lucas Freitas

Para quem deseja seguir a carreira artística, recomenda paciência e resiliência. Reconhece, com humor, que não gosta de esperar, mas aprendeu que as oportunidades acontecem aos poucos. Também aconselha a não deixar que opiniões de quem desencoraja substituam a própria percepção sobre o que se quer fazer.

Entre a lembrança da loja de shopping e os projetos na Europa, a história de Lucas conserva esse fio: continuar buscando trabalho, aprender com as recusas e ampliar as possibilidades de viver da arte. A realização que descreve inclui as câmeras e os palcos, mas também a vida que consegue construir fora deles.

Entrevista concedida por e-mail em 4 de outubro de 2026. Fotografias fornecidas e liberadas pelo entrevistado; créditos reproduzidos conforme as informações enviadas. Os relatos sobre sua trajetória e os projetos em andamento são de Lucas Freitas. Informação complementar sobre A Teoria do Ódio: reportagem da RTP.
Brasileiros que Inspiram

A coluna da Rádio Domm apresenta trajetórias de brasileiros, suas escolhas, desafios e realizações no Brasil e pelo mundo.

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