Derrotado por Lula, Flávio deixa o Brasil e chega a Miami
Senador viajou pela Argentina e pelo Equador após descumprir ordem de entrega dos passaportes; nos EUA, negou fuga em carta e anunciou oposição no exterior.
Derrotado por Lula, Flávio deixa o Brasil e chega a Miami
Derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial de domingo, 25 de outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a Miami nesta quarta-feira (28), acompanhado da esposa e das duas filhas. A viagem ocorreu depois de ele descumprir a ordem judicial de entregar seus passaportes à Polícia Federal. O percurso passou pela Argentina e pelo Equador.
O resultado final divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu a Lula 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos. Flávio recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de 4.430.191 votos, calculada a partir da totalização oficial.
Da contestação do resultado à saída do Brasil
Após a apuração, Flávio recusou reconhecer a derrota e questionou a prorrogação do horário de votação. A Agência Brasil registrou que a própria candidatura do senador também havia solicitado extensão do prazo. O TSE negou outra acusação feita por ele: a de que fiscais do PL teriam sido expulsos da sala-cofre. Segundo o tribunal, essa sala não é aberta à visitação, e fiscais do partido tiveram acesso a outras áreas de acompanhamento da totalização.
A ordem de entrega dos passaportes foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no contexto de investigação por suspeita de lavagem de dinheiro. Flávio nega irregularidades. Em manifestação na segunda-feira (26), havia afirmado que entregaria os documentos e que não pretendia sair do país.
Por terra até a fronteira; depois, dois voos
Segundo o UOL, com base em fontes argentinas, o deslocamento de Brasília a Foz do Iguaçu, no Paraná, ocorreu por via terrestre, em um percurso de aproximadamente 1.600 quilômetros. A apuração consultada não estabelece todas as rodovias, paradas e horários dessa etapa.
A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que a família atravessou a Ponte Internacional Tancredo Neves às 22h50 de terça-feira (27), entrando em Puerto Iguazú, na província de Misiones. O órgão registrou documentação válida e ausência de impedimento para o ingresso no país. O embarque no voo privado foi informado para as 23h30.
- Brasília → Foz do IguaçuTrecho terrestre · cerca de 1.600 km, segundo o UOL
- Puerto Iguazú · ArgentinaEntrada: 27/10, 22h50 · Decolagem: 28/10, 0h22
- Guayaquil · EquadorPouso: 5h46 · Nova decolagem: 6h22 de 28/10
- Opa-locka · região de Miami, EUAChegada: manhã de 28/10, por volta das 10h30
Esquema editorial, sem escala geográfica. Horários de Brasília. Fontes: imigração argentina, conforme CNN; UOL; Reuters / rastreamento aéreo.
O avião foi identificado como um Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, operado pela Baires Fly S.A. A cronologia da Reuters, baseada em dados de rastreamento, registra saída de Puerto Iguazú às 0h22, pouso em Guayaquil às 5h46 e nova decolagem às 6h22. Os horários estão no fuso de Brasília.
Conforme a Band, o rastreamento mostrou um trajeto que contornou o território brasileiro, sobrevoando Paraguai, Bolívia e Peru no caminho ao Equador. A emissora também relatou passagem sobre Panamá e Cuba na etapa final. Esses países aparecem como sobrevoos; as escalas identificadas foram Puerto Iguazú e Guayaquil.
Imprensa argentina relata colaboração do governo Milei
Reportagens publicadas nesta quarta-feira (28) apontam participação do governo de Javier Milei na operação. O jornal argentino La Nación informou que um porta-voz da Casa Rosada admitiu colaboração e comunicação com o governo de Donald Trump. Ao mesmo tempo, autoridades argentinas defenderam a legalidade dos procedimentos migratórios, afirmando que a família apresentou documentação válida e não tinha impedimento para entrar no país.
O Infobae relata que a administração argentina coordenou e colaborou com a logística da saída e que Milei e integrantes de primeiro escalão tinham conhecimento da organização. Segundo a reportagem, a alternativa de embarque por Puerto Iguazú havia sido oferecida pelo próprio governo argentino. Essas informações são atribuídas à apuração do veículo.
A atuação específica de Santiago Caputo, assessor próximo de Milei, também aparece nas reportagens. O La Nación registrou que ele teria estado no aeroporto de Puerto Iguazú como possível interlocutor oficial. Pessoas de seu entorno, porém, negaram colaboração ao jornal, enquanto outras fontes governamentais ouvidas pelo veículo sustentaram que houve ajuda.
A oposição argentina pediu explicações a integrantes do gabinete sobre o episódio. Os relatos de colaboração política e logística não equivalem, por si, a uma conclusão judicial sobre eventual irregularidade. O alcance da participação de cada autoridade permanece sujeito a esclarecimentos.
Desembarque em Miami
As imagens do desembarque confirmaram a chegada da família aos Estados Unidos. Há pequenas divergências entre os horários publicados: a CNN informou 10h25, enquanto a cronologia da Reuters apontou 10h31. Por isso, a chegada é apresentada aqui como ocorrida por volta das 10h30.
O UOL informa que Flávio utilizou passaporte italiano na entrada na Argentina. O veículo também afirma ter identificado, no sistema americano de Alfândega e Proteção de Fronteiras, o uso do passaporte diplomático brasileiro cancelado para o ingresso nos EUA.
Carta nega fuga e anuncia oposição no exterior
Após chegar aos Estados Unidos, Flávio se manifestou por meio de uma carta divulgada por aliados. Nela, agradeceu a Donald Trump e a Javier Milei, alegou perseguição política e negou ter fugido do Brasil. Afirmou ainda que pretende conduzir a oposição a partir do exterior.
“Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil”Trecho da carta atribuída a Flávio Bolsonaro e divulgada por aliados. Reprodução textual; não é imagem do documento original.
Na primeira versão, o senador se autodeclarou “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, embora tenha perdido a eleição. Uma versão posterior substituiu essa expressão por “líder do Brasil”, segundo o UOL. As alegações de fraude eleitoral não vieram acompanhadas de provas.
O Metrópoles registrou também a troca do brasão antigo por uma versão com a denominação atual do país. As diferentes versões do texto podem ser consultadas na publicação do UOL que reúne a carta.
Coletiva anunciada para quinta-feira
Até o fechamento desta matéria, as fontes consultadas apontavam uma coletiva prevista para a tarde de quinta-feira, 29 de outubro, em Miami. O anúncio foi feito por Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro. Não foi localizado registro verificável de Flávio lendo a carta em uma coletiva ao lado do irmão; por isso, a entrevista não é tratada como já realizada.
Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos e tem mandado de prisão pendente de cumprimento no Brasil, conforme reportagem da Agência Brasil de 9 de outubro. A ordem decorre da execução da condenação a quatro anos e dois meses por coação no curso do processo. Sua situação judicial é distinta da de Flávio.
O desembarque e a passagem pela fronteira esclareceram parte das informações desencontradas divulgadas na véspera. A cronologia migratória situa a entrada na Argentina somente na noite de terça-feira. Permanecem sem esclarecimento completo o financiamento da viagem e todos os detalhes do deslocamento dentro do Brasil.



Comentários